Deni de Lima

O samba perdeu Deni de Lima, um partideiro fera na arte de versar, mas que não soube improvisar para escapar das ciladas, das armadilhas que apareceram em seu caminho. Escrevo estas linhas com muita tristeza, pois ao participar do início de sua trajetória no samba, me tornei seu fã. Porém, sua trajetória se fez errante pelos caminhos que, aos poucos foram derrotando seu talento musical e sua saúde. E Deni se foi. Era um cara iluminado, inspirado e capaz de conversar por horas e horas com mestres como Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, Arlindo Cruz, Sombrinha e tantos outros. Era conhecer Deni e se apaixonar por sua arte, sua brincadeiras, seu bom-humor. Mas ele não conseguiu se desviar do lado obscuro da vida. Perdeu a batalha.

Zeca Pagodinho e Deni de Lima

O conheci na gravação do primeiro LP solo do Zeca. Os dois brincaram de versar no pot-pourri Hei de Guardar Teu Nome/Vou lhe Deixar no Sereno/A Macumba da Nêga, em 1986. E o sucesso foi tanto que no ano seguinte a gravadora RGE resolveu fazer um disco inteiro com o novato Deni. E foi aí que começou um roteiro de filme. Repertório definido com o produtor Mílton Manhães, eu em meu segundo ano de coordenador de produção, marcamos com Deni no antigo estúdio da Transamérica, ali na São Francisco Xavier. E ele foi. Tirou o tom da primeira música e desapareceu. Zeca chegou, os dois foram saindo de fininho e vazaram. Mas Deni, assim como Zeca, possuía o dom de aprontar e não receber rancor de ninguém. Era impossível brigar com ele. Mas, com a fuga do cantor, restou ao Maestro Ivan Paulo tirar o tom das outras músicas pela primeira e fazer os arranjos.

O outro capítulo foi achar o cantor para iniciar a gravação das bases do disco. Achei em Vila Isabel, com uma fã. Levei o casal para jantar no restaurante Ásia, na Rua Souza Franco. E Deni jantou, comprou flores e versos (naquela moldura de papel, conhece?). Aliás, eu comprei né? Ao final do jantar ele queria ir pra casa do Beto Sem Braço. Mas essa eu não podia perder e o convenci a ir pra minha casa. O tranquei no quarto e avisei para o Mílton, que confirmou a gravação com os músicos e o Ivan Paulo. Na manhã seguinte levei o cantor, ele fez a primeira voz guia, mas num descuido, não é que ele sumiu de novo? O remédio foi revezar com Mílton as vozes guia na gravação. Eu cantava uma e ele outra.

Após todas as fases da gravação do disco, começou o capítulo final chamado de Caça ao Cantor, para que ele colocasse a voz definitiva nas músicas. Se bem me lembro foram nossas então competentes assistentes Sandra Rolszt e Cecília de Souza que encontraram Deni. E ele, enfim, cantou no seu disco. Mas não teve briga e sim muitas gargalhadas.

Deni era assim. Um anjo negro que passou por aqui. Um anjo torto, talvez. Um iluminado do samba. Quando chegava bem nos pagodes era motivo de alegria. Versava como se estivesse brincando e cantava lindos sambas, destes que rádio não toca, como por exemplo Quintal do Céu (Wilson Moreira/Jorge Aragão), que ele adorava. Ou Mulata Beleza (Zé Roberto), de seu LP. Era lindo ouvi-lo cantar Orai por Nós (Almir Guineto/Luverci Ernesto)

Deni de Lima, Wanderson Martins e Marcos Salles

Prefiro lembrar do Deni na alegria. Na última vez que nos vimos, ele cantou bonito na Feijoada do Stevie, no Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército, no Rocha. E no final ainda pagou refrigerante pras crianças. Pode acreditar. E, pra terminar, outra dele. Com minha filha Andressa, ainda pequena. Estávamos na mesa de um pagode que o Roberto Serrão armava em frente à sua casa, na Piedade. Até que chegou um cara muito bêbado, tropeçando e cuspindo. Minha filha na mesa comigo. Ninguém gostou e foi Deni quem resolveu a parada. Virou o cigarro com a cinza para o lado de dentro da mão e apertou a mão do mala sem alça. Mão queimada, o porre passou e ele tirou o time, apavorado. E Deni piscou pra Andressa. Aliás, ela que me contou, pois só ela viu. Valeu Deni.

Este Deni que não foi campeão de execução nas rádios, mas foi o cantor das ruas, dos pagodes e agora deve estar em alguma nuvem versando com Baiano do Cacique, Neoci Dias, Jovelina e revendo também velhos parceiros como Beto Sem Braço, Mussum, Jorginho Bombom e Tia Doca…

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Fabio Silvahttp://#
Paulistano, Corintiano, casado, pai de dois filhos e um apaixonado pela cultura do Samba.

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